segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

História da Moda - Década de 20

Como visto no post anterior de História da Moda - 1910, a 1ª Guerra Mundial trouxe inúmeras mudanças significativas na criação de moda, nos tecidos para roupas e nos métodos de produção de vestuário, com roupas mais simples e fáceis de se usar. No pós-guerra, Paris continuou a dominar a moda internacional, e casas de alta-costura revitalizadas viram uma explosão de vendas. A  grande procura por vestidos de casamento imediatamente após a guerra deu a indústria o impulso que necessitava muito, assim como o fizeram as taxas de câmbio preferenciais de libra e dólar perante o franco, o melhor transporte aéreo e marítimo e a rede de comunicações cada vez mais refinada. O ano de 1921 testemunhou o lançamento bem-sucedido da Vogue Francesa, que gerou grandes vendas dentro e fora do país. Muitos estilistas expandiram suas casas de moda, alguns empregando até 1.500 artesãos altamente habilidosos nos estúdios de alfaiataria e costura nas oficinas de bordado e acessórios. 





A indústria tornou-se ainda maior, à medida que os estilistas começavam a diversificar e produzir roupas e artigos esportivos de alta qualidade, prontos para uso, e passavam a introduzir linhas de difusão altamente lucrativas, como a de perfumes. Poiret havia lançado sua própria série de perfumes antes da guerra, mas Chanel foi a primeira estilista a colocar seu nome em um vidro de perfume, o Chanel Nº 5. Lançado em 1921, foi elaborado por Ernest Beaux, o perfumista que se tornou famoso pelo uso de aldeídos sintéticos para ressaltar o aroma de ingredientes naturais caros, como o jasmim. A própria Chanel desenhou o recipiente, modernista, no estilo dos vidros farmacêuticos, provocando uma tendência de distanciamento dos recipientes preciosistas e curvilíneos. Outras casas seguiram imediatamente o exemplo e as vendas de perfumes, desde então, mostraram-se altamente lucrativas.




Durante a primeira metade da década de 1920, a moda seguiu dois cursos - o tradicionalmente feminino e o mais modernista. Nos EUA, Tappé; em Londres, Lucile; e em Paris, Paquin, Callot Soeurs, Martial et Armand e, principalmente, Jeanne Lanvin, estavam na dianteira do movimento romântico. Esses estilistas deliciavam-se em criar roupas sonhadoras em tafetá ou anchamalote, organdi e organza, em tons pastéis, açucarados, enfeitados com fitas, flores de pano (muitas vezes na faixa da cintura) e renda. Os modelos valiam-se de fontes exóticas e históricas, culminando, muitas vezes, no robe de style ou "vestido quadro", com corpete armado, cinturado e com saias esvoaçantes, que chegavam pouco acima do tornozelo. Chapéus em estilo pastora, adornados com fitas e sapatos pontudos, atados com fitas de seda, completavam o visual. Vestidos "mãe e filha" de Lanvin, em cores pastel, são a síntese desse estilo e foram imortalizados nas refinadas gravuras de moda de Georges Lepape, Benito, André Marty e Valentine Gross, entre outros.



O que determinaria a moda do pós guerra, porém, seria o visual garçonne - a própria antítese do estilo romântico. Dizem que o termo originou-se da novela sensacionalista de Victor Margueritte, de 1922, La garçonne, que conta a história de uma jovem progressista, que deixa a casa da família em busca de uma vida independente. O visual garçonne era antes uma aspiração que uma realidade já que relativamente poucas mulheres realmente experimentavam a realidade social, econômica e política. Não é a toa que nessa época que as mulheres ganham direito ao voto em alguns países.






O visual garçonne ou jeunne fille desenvolveu-se durante os anos imediatamente após a guerra e chegou ao seu auge em 1926, continuando, com poucas modificações, até 1929. Era um estilo jovial, meio moleque, que, por exigir uma figura pré-adolescente, trouxe uma mudança drástica no físico desejável para a moda e inundou as páginas da moda com adjetivos como "esbelta", "esguia" e "delgada".




Os penteados também seguiram a voga jovial e andrógina. As mulheres mais avançadas passaram a usar cabelo curto em 1917 e, no início da década de 1920, muitas outras acompanharam a tendência. Usava-se brilhantina para manter brilhantes e lustrosos os cabelos curtíssimos. Cabelos longos eram geralmente penteados para cima, enfeitados para a noite com ornamentos como pentes espanhóis, com engastes altos, decorados e com longos dentes curvos. Em 1916, os penteados curtos tornaram-se a norma, e a mais atrevidas adotaram o corte conhecido como " Eton crop", que lembrava o corte usado pelos garotos nas escolas. Cabelos curtos, naturalmente, eram essenciais sob o onipresente chapeu cloche. Em forma de sino, geralmente de feltro, ficava justo na cabeça e cobria a testa. O rosto era ressaltado com cosméticos, usados agora com muito mais abundância do que antes. A indústria de beleza prosperou, à medida que jovens da moda começavam a depilar as sobrancelhas, até que se tornassem arcos finos, e a ressaltar os olhos com linhas escuras de kohl e aplicar cores fortes nos lábios - às vezes, mesmo em público.




Ao longo de todo o período, as modelos profissionais (geralmente contratada para uma casa de moda específica) foram geralmente anônimas, ao passo que as mulheres bonitas da alta sociedade, estrelas do cinema e atrizes eram celebradas em revistas de moda, recebendo, às vezes, cobertura mais extensa do que os estilistas cujas roupas endossavam. O cinema tornou-se um líder de estilo especialmente poderoso. O público ficava encantado com vamps do cinema mudo, como Theda Bara, Pola Negri e Clara Bow, embora não fosse adequado traspor suas aparições teatrais para a vida cotidiana. Contudo, após a introdução do som em 1927, houve uma tendência para maior realismo. Quando estrelas como Joan Crawford, Louise Brooks e Gloria Swanson foram colocadas no papel de melindrosas, inspiraram milhões de mulheres a copiar suas roupas, penteados e cosméticos, além de seus maneirismos. As revistas para fãs, surgidas pela primeira vez em 1911, revelavam as rotinas de beleza e os guarda-roupas dos astros. Atores como Rudolph Valentino e Douglas Fairbanks ofereciam novos padrões de estilos para homens. Ina Claire levou o visual Chanel para a Broadway e a graciosa Gertrude Lawrence usou os conjuntos de pijama de Molyneux no palco.

 
Gloria Swanson

 
Louise Brooks
 
Rudolph Valentino
  
A simplicidade que caracteriza o visual garçonne fica evidente antes no corte que no tecido. O vestido chemise, de corte reto, iria tornar-se a linha dominante para os trajes de dia e noite. Os trajes pendiam dos ombros, enquanto a cintura descia ao nível dos quadris. Chanel e Patou foram os principais expoentes do estilo garçonne, e a primeira, cuja aparência era o exemplo acabado de seus modelos, recebia a maior parte da cobertura da imprensa. Outras casas parisienses de primeiro nível incluíam Doucet, Jenny, Lanvin, Paquin, Doeuillet, Molyneux e Louiseboulanger. Embora Poiret se adaptasse às tendências do pós-guerra, já não estava mais na vanguarda. 



Ao longo de toda a primeira metade da década de 1920, houve incerteza quanto à direção futura da bainha. Chanel e Patou regularmente defendiam o comprimento menor, e essa moda fez muito para estimular a procura por meias. As meias de seda continuavam a ser as mais desejáveis, geralmente em cores lisas - branco, preto e tons neutros de bege e cinza eram os mais populares, com decoração normalmente limitada a pinhas discretamente bordadas. Modelos mais vistosos, em xadrez e tartã, eram usados com roupas esportivas. Os estilos de calçado mais comuns eram os escarpins com salto cubano e sapatos com tiras cruzadas em T. O material dos sapatos incluía couros lisos ou em dois tons e pele de répteis, para o dia, e tecidos bordados e brocados, sedas e pelica dourada, para a noite, com fivelas de pedras preciosas e inserções decorativas nos saltos.



Embora  o corte das roupas fosse geralmente despojado, os tecidos eram altamente decorados, especialmente depois do anoitecer. Desenhos naïfs, motivos folclóricos eslavos, ricamente coloridos, introduzidos em Paris por imigrantes russos, após a revolução de 1917, tornaram-se uma fonte notável durante os primeiros anos da década. Seguindo a abertura do túmulo de Tutancâmon, em fins de 1922, houve também uma voga por motivos egípcios, com escaravelhos e flores de lótus entre os muito motivos associados que inspiravam os tecidos da moda. Clientes ricos podiam escolher entre um enorme leque de padrões, que iam de audaciosos desenhos modernos a repetições baseadas em fontes históricas, muitas vezes do século XVIII. Uma loucura por chinoiserie estimulou a produção de uma profusão de tecidos e estampas ornamentados e ricamente coloridos. Têxteis estampados devoréforam especialmente populares. O corte de roupas de noite era reto, às vezes em estilo de túnicas gregas, com inserções laterais e decotes baixos com alças finas nas costas. Sedas finas com brocados e lamês de ouro e prata, concebidos por grandes artistas têxteis e produzidos nas fiações de Lyon, eram combinados com finos ornamentos de bordados e contas, para demonstrar as habilidades da alta-costura com o máximo de efeito. 


 
Theda Bara no filme Cleópatra de 1917

Também de Lyon vieram os exemplos mais dramáticos e sofisticados de xale - um acessório altamente popular do início da década de 1920 até o início da década de 1930. Caindo de várias maneiras sobre o corpo, muitas vezes com franjas de seda, os xales com brocados de Lyon, havia peças com ricos bordados, importados da Índia e da China, além de versões pintadas a mão por artistas proeminentes.



É um mito da história da moda a afirmação de que as mulheres abandonaram os espartilhos durante a década de 1920. Alguns "brilhantes modelos jovens", muito propagandeados, realmente deixaram de lado os espartilhos e ligas, as meias sendo enroladas até acima do joelho - um visual muito satirizado nas caricaturas contemporâneas da mulher moderna -, mas, para a maioria das mulheres, espartilhos elásticos longos, cilíndricos, ofereciam sustentação e serviam para suprimir curvas femininas na busca pelo visual da moda. Também foram adotados substitutos mais macios do espartilho, comoos "roll-ons" e "step-ins", com fechos de zíper na lateral. (O zíper, originalmente conhecido como "slide fastener" - fecho de correr -, foi inventado na década de 1890 e patenteado como zipper em 1923). 




Jóias que eram orgulhosa e desafiadoramente falsas tornaram-se o novo acessório da moda na década de 1920. Tradicionalmente, a função das pedras artificiais fora oferecer cópias enganadoras de originais preciosos. Chanel, que abrira suas próprias oficinas de joalheria em 1924, zombava dessa convenção idealizando jóias com pedras de massa vítrea e pérolas falsas em cores e tamanhosque desafiavam a natureza. Ela acreditava que as jóias deviam ser usadas como enfeite, não como ostentação de riqueza. Virando a tradição de ponta-cabeça, ela mesmo usava, durante o dia, jóias que, normalmente, teriam sido consideras adequadas apenas para a noite - colares de pérolas falsas ou seus característicos colares ou broches de pedras coloridas, inspirados em jóias renascentistas e bizantinas. Para a noite, frequentemente evitava as jóias por completo.


 
Broche de pérolas falsas que pertencia a Chanel
 



 
Um dos colares de pérolas falsas que Chanel usa na foto acima
 

 
 
Pulseira que Chanel usa na foto acima

Em 1925, a fotografia em preto e branco substituíra as ilustrações como principal registro e comunicação da expressão da moda. A iluminação clara e o foco nítido permitiam que o corte, a construção e as texturas dos tecidos fossem mostrados com clareza, embora os editoriais tivessem que fornecer os detalhes de cor. 


Fotografia de Edward Steichen

A iconografia dos esportes e a criação de roupas esportivas tornaram-se um foco da nova modernidade. Os costureiros abriram departamentos especializados, e nenhum levou mais a sério esse aspecto do vestuário que Patou, que produzia criações para esportistas profissionais. Sua cliente mais famosa foi a campeã de tênis francesa Suzanne Lenglen, que ele vestia dentro e fora das quadras. Patou também criou roupas especializadas para natação, equitação, golfe e esqui, e a mistura do funcionalismo ergonômico e estilo influenciaram suas coleções para as linhas principais. Em 1924 aproximou-se do mercado americano ao importar seis americanas de aparência atlética para desfilar suas roupas em Paris. Jane Regny, esportista, além de estilista, trouxe a própria experiência e conhecimento de roupas esportivas para suas coleções e, Lanvin e Lucien Lelong também foram excelentes nesse campo. 



A loucura por atividades esportivas profissionais e amadoras coincidiu com o endosso científico das propriedades saudáveis da luz solar. Pela primeira vez, a pele braonzeada entrou na moda, evidenciando o lazer e a riqueza necessárias para obtê-la - idealmente em estâncias cosmopolitas à beira-mar. O design de roupas de banho passou por mudanças dramáticas durante os anos após a guerra, os novos trajes expondo audaciosamente o corpo à visão pública e ao sol. Roupas de banho de uma peça, feitas em malha, haviam surgido pela primeira vez em torno de 1918 e, em meados da década de 1920, as mulheres estavam descartando a desajeitada variedade composta de túnica e calções em favor de modelos menores de uma peça. À medida que a década avançava, os trajes foram se tornando ainda menores. As mangas foram eliminadas e os calções foram para o nível das coxas. As roupas, tanto para homens tanto para mulheres, tinham sobre-saias que ocultavam a virilha, mas essa modéstia fora geralmente abandonada em meados da década. Toucas de borracha também haviam se tornado disponíveis na mesma época, completando o visual esguio e dinâmico das modernas roupas de banho.




Chanel continuou a ser manchete na moda ao longo de toda a segunda metade da década de 1920, trazendo muitos artigos do vestuário masculino - alguns dos quais haviam sido usados pelas mulheres durante os anos de guerra - para o guarda-roupa da mulher da moda. Blazers, camisas com abotoaduras, capotes e roupas de alfaiataria em tweed de lã grosso surgiam regularmente em suas coleções. Um dos desenvolvimentos mais radicais para as mulheres foi a aceitação gradual das calças, que não eram mais consideradas excêntricas ou estritamente utilitárias. Chanel fez muito para acelerar essa mudança e muitas vezes foi fotografada durante o dia usando calças folgadas, em estilo marinheiro, conhecidas como "pantalonas de iate". As jovens mais na moda começaram a usar calças em atividades de lazer, particulamente na praia, ou, à noite, em casa, estas na forma de conjuntos de pijama estampados, luxuosos, em estilo chinês. As calças femininas tinham corte folgado, muitas vezes com elástico ou cordões na cintura, e eram distinguidas das calças masculinas por fechos laterais.




Em 1926, com o lançamento do seu legendário "pretinho", Chanel promoveu o negro como a cor que podia ser explorada puramente pela sua elegância e capacidade de "cair bem". Tecidos foscos, como crepe e lã, eram populares à noite, às vezes acentuados como debrum diamanté. A Vogue norte-americana comparou o modelo desses vestidos ao automóvel Ford todo preto, produzido em massa, e previu que seriam adotados por um setor igualmente amplo do mercado. As modas de 1927 foram caracterizadas por bainhas desiguais, com pontas de lenço ou bainhas mais longas nas costas. Echarpes estreitas e longas, às vezes ligadas aos vestidos, também serviam para quebrar a linha da bainha de maneira decorativa. Conjuntos de cardigã de jérsei, tricotados, continuaram a ser o esteio do guarda-roupa feminino durante toda a década. Alguns eram feitos de tecidos listrados horizontalmente, mas muitos eram lisos ou simplesmente adornados com uma cor contrastante.




O estilo garçonne, com seu corte folgado e reto, era fácil de fazer em casa, assim como de produzir em massa em tamanhos padronizados. Era econômico - apenas dois ou três metros de tecido bastavam para um vestido - e, como os traje eram geralmente feitos de material leve, podiam fer montados em casa, com máquinas de costura. Costureiros domésticos tinham acesso a modelos criados por costureiros parisienses de primeiro nível. Entre 1925 e 1929, a McCall Pattern Company, nos EUA, tinha modelos de Chanel, Vionnet, Patou, Molyneux e Lanvin, entre outros. Na Grã-Bretanha, o Weldon's Ladies Journal publicava revistas que incluíam não apenas moldes gratuitos, mas também desenhos de moldes que podiam ser encomendados pelo correio.




O desenvolvimento do rayon foi uma das descobertas têxteis mais significativas do período entre-guerras. Superficialmente, com a textura e aparência da seda natural, o rayon tornou-se um grande bem do mercado de massa. Desde a década de 1880, haviam sido feitas tentativas de aperfeiçoar uma fibra artificial, mas com pouco sucesso. No início, o uso desse tecido limitava-se ao forro de séries mais baratas do vestuário, lingerie e enfeites, mas, subsequentemente, foi empregado em grandes quantidades na produção de meias. À medida que as técnicas progrediram, disponibilizando um acabamento agradavelmente opaco em 1926, o rayon começou a ser usado em roupas para o dia e noite, assim como para malhas da moda.






A principal característica da moda de 1929 foi a dramática queda das bainhas nas coleções de inverno - uma mudança amplamente atribuída a Patou. Afirmou-se muitas vezes que o comprimento das saias reflete a situação econômica e que, quando os tempos são ruins, as saias são longas, mas essa teoria tem de ser tratada com cautela. As coleções de inverno de 1929 haviam sido desenhadas e produzidas bem antes do colapso da Bolsa de Wall Street, em 24 de outubro de 1929, que causou, da noite para o dia, a bancarrota de multimilionários e de enormes companhias internacionais e trouxe um fim abrupto aos "Ruidosos Anos 20".


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